Lei de restrição ao uso de celulares nas escolas: Redefinindo o ensino e a interação social

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Depois de três meses da lei que proíbe os celulares na escola, professores notam as mudanças.  

01.04.2025

Tainá Fonseca, sob supervisão de Jonathas Cotrim


No início deste ano, entrou em vigor a lei que restringe o uso dos celulares nas escolas públicas e privadas de todo o Brasil, com o objetivo de melhorar a concentração, a socialização e promover um ambiente saudável e equilibrado aos alunos e professores.

Antes da aprovação, muitas escolas já proibiam o uso dos dispositivos em sala de aula, utilizando o celular apenas para fins pedagógicos O Colégio Presbiteriano Mackenzie (CPM) São Paulo, por exemplo, desde 2024 tem o projeto “Sala Sem Celular”, para incentivar o uso consciente e melhorar o desempenho dos alunos. 

Nas primeiras semanas do início do ano letivo de 2025, os alunos estavam mais rígidos em relação à nova lei, mas hoje já sentem as melhorias. Em contrapartida, alguns alunos, que possuem uma dependência maior do celular, ainda se encontram resistentes. “Resistem como podem: pegam o celular escondido, retiram-no da mochila entre as aulas, compram relógios inteligentes. Enfim, trata-se de um desmame sofrido”, explica o professor de história do CPM Elder Al Kondari Messora. 

Segundo dados da DataReportal, os brasileiros gastam em média 56% das horas acordadas em frente a telas, sendo o segundo país que mais investe horas na internet. A presença constante de notificações, a hiperestimulação de aplicativos e as redes sociais que possuem uma interface contínua de vídeos, todas essas interações constantes liberam quantidades altas de dopamina, deixando o cérebro viciado e dificultando a atenção em outras atividades.  

Quando falamos de crianças e adolescentes a situação se torna mais preocupante, já que, na maioria dos casos, eles não possuem discernimento para utilizar as redes de forma moderada. “Grande parte dos jovens (talvez, a maioria deles) enxerga o que o celular proporciona como uma extensão da vida social, como uma extensão dos momentos de lazer”, conta o professor de geografia da CPM William Kyoshi Fugii 

Para que os alunos não sentissem tanto desconforto em ficar longe dos aparelhos eletrônicos, o Colégio Presbiteriano Mackenzie (CPM) ofereceu um serviço de acolhimento psicológico para os alunos que apresentassem maiores dificuldades nesta adaptação e, para as atividades pedagógicas que exigem o uso da tecnologia, a escola colocou à disposição dos alunos tablets para serem usados nas aulas. “Para ajudar na adaptação, a escola também disponibilizou jogos e equipamentos esportivos, além do serviço da biblioteca que já era oferecido”, aponta a psicóloga escolar, Silvania Coutinho de Souza Bitencourt.

A psicóloga também conta que diversos problemas aos adolescentes estão relacionados ou se agravam com o uso descontrolado dos celulares, como a dificuldade de se concentrar, aumento da ansiedade e do estresse, impacto nas habilidades sociais básicas, na autoestima com as comparações que as redes sociais causam e o desenvolvimento de problemas psicológicos.  

Ao fim do terceiro mês do ano letivo, a psicóloga escolar Silvania e os professores observaram uma melhora significativa em relação à concentração dos alunos e nas interações sociais. “Atividades interativas e práticas ajudaram a manter o engajamento dos alunos sem o uso de celulares. Atualmente, os alunos estão mais acostumados à nova rotina e conseguem focar melhor nas atividades escolares”, explica Bitencourt. 

O professor Elder Al Kondari Messora explicou que além da atenção nas aulas terem aumentado, houve também uma diminuição do isolamento entre os alunos, refletindo uma rotina mais dinâmica e interativa. “Hoje, durante o intervalo entre as aulas, os alunos estão espalhados em grupos e, frequentemente, precisam ser reconduzidos aos seus lugares. À primeira vista, pode parecer mais trabalhoso, mas é, sem dúvida, mais saudável”, diz Messora.